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Ludus na estrada, parte um

Entramos num grande movimento pelos próximos três meses. Antes de Palermo, duas semanas de férias na Grécia. Este é o diário de Atenas.

A Ludus se interessa pelo movimento, pelo mundo e pelas diferenças. Achamos que existe muito potencial artístico nas experiências que atravessamos enquanto vida cotidiana e corriqueira. Ou seja, qualquer excursão, seja ela uma caminhada pelo bairro onde moramos ou três meses viajando pela Europa, possui exatamente o mesmo potencial artístico, mesmo sendo duas coisas completamente diferentes. Isso porque é através das contingências e das trocas do processo que absorvemos histórias, ideias, enfim, material que depois se desenvolve em arte. Muitas vezes a arte é muito mais sobre quem a faz do que sobre qualquer outra coisa. Nós gostamos muito de pensar no território como corpo e objeto artístico, como história e narrativa. E gostamos muito de conhecer coisas novas.

Decidimos então entrar num grande movimento pelos próximos três meses. Estaremos semi-nômades, itinerantes, trabalhando de nossos computadores e fazendo de nossas andanças e viagens mais arte e inspiração para a LUDUS. Dito isso, escrevemos agora já da estrada, pois as últimas semanas foram muito velozes por aqui. Estamos agora em Palermo, cidade lindíssima na Sicília, ilha no sul da Itália. Mas antes de falar sobre esse lugar, vamos contar um pouquinho sobre nossas aventuras na Grécia, onde ficamos duas semanas de férias. Dentro dos relatos, também vamos incluir algumas dicas para entusiastas, viajantes e artistas que gostam de viajar, como nós, pois concluímos que cada uma de nossas vivências foi uma espécie de vivência artística a partir de como decidimos ou não vivenciá-las.

Atenas

Foi nosso primeiro destino desde o Brasil. Ficamos três dias nessa capital, que pareceram muito mais três semanas de tanto que andamos, pensamos, vimos, conversamos e absorvemos. Atenas é realmente uma cidade muito complexa e interessante. Escolhemos um bairro sem muito saber, a partir do Airbnb custo-benefício que se manifestou pra nós na hora da reserva. O bairro se chama Exarcheia, e foi só nas primeiras caminhadas pela região que entendemos que se tratava de um bairro super ativo politicamente. Nossa primeira interação foi até um tanto esquisita, visto que sentimos que éramos um dos únicos turistas na área (o que amamos), mas que o bairro estava cercado de cartazes e lambes colados pelas ruas e paredes escrito: TOURISTS GO HOME!

Luís e Dora na Acrópole, diante do Partenon

Exarcheia: placas, lambes e um mercado de antiguidades a céu aberto

Complexidades à parte, foram só dois dias depois, quando finalmente tivemos a oportunidade de ter uma conversa com locais, que entendemos um pouco melhor sobre essa “briga”, ou dilema. Realmente existem turistas e turistas. Andamos em média 15 km por dia, e no nosso primeiro dia fomos logo cedo experimentar um iogurte super tradicional numa loja que funciona desde 1940, e realmente é impressionante a textura e o sabor dos iogurtes gregos. Provamos iogurte de cabra e de ovelha. Os dois regados de mel (que também é uma iguaria do país).

Decidimos que nosso maior meio de transporte seria o metrô e os nossos pés, e vale avisar que o metrô de Atenas é muito organizado e funciona super bem. Uma ótima opção para viajantes budget como nós, e que gostam de se movimentar como os locais. Você meio que precisa falar inglês para se comunicar na Grécia. Quase todos os gregos falam um pouco, e fora essa língua é difícil ter uma conversa com eles. Uma outra curiosidade é que no verão os dias aqui são muito longos, o sol não se põe até umas 21h da noite, então a sensação de viver mais é real.

Seguimos nosso dia para um museu de arte contemporânea que fica meio afastado da cidade, se chama Public Tobacco Factory, e honestamente havíamos visto as fotos online de uma exposição que já não estava mais vigente, então recomendamos checar as mostras antes de se deslocar até lá (duh). Mas tivemos uma bela surpresa, pois a exposição que vimos tinha alguns pontos de encontro com a nossa pesquisa sobre Caminhada Sonora, e ainda aproveitamos a caminhada da volta para transformá-la em uma obra. Ainda vamos escrever um texto falando mais sobre isso, pois é uma das frentes da Ludus, inclusive para essa viagem.

Voltando para a região mais central, batemos muita perna pela região vizinha à Acrópole, onde tem vários mercados com bugigangas e souvenirs, e lá acabamos fazendo um tour de olive oil com free tasting que foi maravilhoso. Aprendemos como se fazia e ainda se faz azeite de oliva, provamos vários tipos de azeite, enfim, foi muito legal. O azeite de oliva da Grécia é uma prática ancestral e muito especial, são realmente muito refinados os sabores e as técnicas de feitura de azeites que encontramos por aqui.

À noite, tivemos a oportunidade mágica de ir assistir a um espetáculo de um compositor e pianista grego, no antigo teatro romano Odeão de Herodes Ático, localizado na encosta sul da Acrópole de Atenas. Construído em 161 d.C. e com capacidade para 5 mil pessoas, é possível explorar a grandiosidade e a acústica avançada deste marco histórico nos concertos e óperas do Athens Epidaurus Festival durante o verão. Tivemos a brilhante sorte de estar por lá nessa época. Foi um espetáculo emocionante, uma experiência que definitivamente vale a visita.

E voltando dessa experiência surreal de linda, aproveitamos para ir conhecer um restaurante que havia sido recomendado por um amigo, o Birdman. Gostoso, mas nada que São Paulo não dê um banho. Pedimos esse sanduíche de tonkatsu que valeu a pena.

O segundo dia foi extraordinário, pois já começamos cedo visitando a Acrópole e o Partenon, passeio turístico meio que imperdível. É realmente fascinante poder observar a grandiosidade das estruturas, da história que aquele lugar comporta. O Luís chorou pela segunda vez na viagem com esse sentimento, que acaba transbordando mesmo. Também visitamos o Museu da Acrópole, que fica na região, e depois comemos nosso primeiro gyros da viagem. Muuuuuito bom.

O antigo Odeão de Herodes Ático, na encosta sul da Acrópole

Nosso primeiro gyros da viagem

Decidimos que hoje seria o dia de explorar o “YAMAS!” do nosso jeito. Yamas significa algo parecido com “saúde”, uma saudação para brindar. Tem um ditado de que a cada brinde você tem que falar Yamas mais alto, até um certo ponto da noite (depois de alguns copos) em que você grita. Iniciamos nossos trabalhos no fim de tarde, caminhando e bebendo cervejas gregas pelo bairro, passando por um mercado de antiguidades super charmoso e cheio de surpresas. Fomos então tomar alguns aperols num terraço com um bom custo-benefício, que dava pra ver a cidade na luz bela do fim do dia. Muito especial.

Continuamos nossa jornada até um club/bar que a gente queria muito conhecer, o Pharaó, mas quando chegamos lá estava lotado e então acabamos indo em um outro bar nas redondezas. Foi a melhor decisão da noite.

Aperols num terraço, na luz do fim de tarde

Atenas em vermelho, a caminho da próxima parada

Sabe quando só de ver um lugar ou uma pessoa você já sente que a energia bate? Foi tipo isso que sentimos com esse charmosíssimo bar pertinho do nosso Airbnb, que honestamente parecia ser um bar muito bem frequentado por LOCAIS. TCHIN TCHIN é o nome desse lugar incrível. It’s a must. Lá, brindamos mais uns três Yamas e fizemos amizade com o DJ, um grego formidável que sabia muito sobre música, inclusive sobre música brasileira.

Ganhamos shots, conversamos a beça sobre política, sobre cultura, sobre música e até sobre o nosso projeto. Foi muito legal ouvir a curadoria do Theo, DJ da noite (e residente do bar há muitos anos), uma noite inspiradora e muito divertida. Contamos a ele do nosso projeto musical e do nosso lançamento, e ele nos passou seu e-mail, visto que o cara era tão low profile que não tinha nem WhatsApp.

Tropicália na mesa do Tchin Tchin: a música brasileira nos encontrou em Atenas

Theo, o DJ residente do Tchin Tchin

Fechamos a temporada de Atenas amarradões, prontos para pegar o sol e as águas cristalinas de Kefalonia, próximo destino das nossas férias.

Hasta luego,
Ludus.